A pressa é inimiga da perfeição



A pressa é inimiga da perfeição



        Atrasado! Entro no chuveiro e molho corpo, o famoso banho de gato. Visto a calça aos pulos já procurando o que comer, e depois a camisa já procurando a mochila.  Me arrumo o mais rápido que posso. Me sinto um triatleta. Tomo café e engulo algumas bolachinhas, pra que perder tempo mastigando? A despedida vem no grito  'Já vô!'. Chego no portão e volto. Esqueci a chave, estou de chinelo, e vesti a camisa ao avesso. Repito em minha mente varias vezes: A pressa é inimiga da perfeição.
         Ela gera stress, dor de cabeça. Atrasado sempre, sempre atrasado. Mas se já está, não há mais o que fazer. Mesmo assim faço um esforço para me redimir com o tempo. Vou correndo até o ponto de ônibus, pensando bem o trem é mais rápido. Mas até chegar na estação... Que duvida cruel, vou de ônibus mesmo, pois já o consigo ver. Entro e sento. Aproveito para pensar o caminho com detalhe, e afirmo: 'Depois que ele passar da Belmira é rapidinho'. Dez minutos depois minha mente se revolta: 'Que motorista lento. Tira o pé do freio. Desse jeito nunca vou chegar'. Com meus olhos apreensivos e quase a chorar, olho ao redor e vejo outras pessoas na mesma situação. Algumas reclamam alto, e fazem parecer que está demorando mais do realmente está. Pronto fim da Belmira.
        Meu coração volta aos batimentos normais, ou seja sempre acelerado. A um minuto atrás ele estava quase parando. Quem tem pressa, tem aspirina no bolso. Mastigo algumas para descer mais rápido. Agora mais calmo, olho através da minha TV em tempo real, e vejo os carros passando, motos passando, ônibus passando, até pedestres passando, meu criativo cérebro vê uma lesma passando. O que está acontecendo, me levanto e olho. São dezenas de pessoas querendo entrar. Olho meu reflexo no vidro e penso 'era o que me faltava'. Da frente vem o famoso e irritante grito: 'Dá um passinho pra trás, por favor pessoal', e a resposta vem quase como uma porrada: 'Na cabe mais ninguém aqui, se não acredita vem aqui ver', todos sabem que é impossível ir lá conferir. Mas no final sempre cabe mais um. Agora mais que cheio, vamos direto e reto.
         Por que? Por que? POR QUE?  Não acredito! Só pode ser uma conspiração. Está cheio e ele quer ficar parando em todos os pontos da cidade para pegar mais gente. Não cabe mais, alguém fala isso pra ele. O relógio ri da minha pessoa, se diverte com minhas caras e bocas. Resmungo palavras do tipo: 'Melhor ir a pé', 'Cadê minha bicicleta nessas horas?'. Peço a bolsa da pessoa que está em pé. Eu levo, pois ninguém merece estar em pé e apertado com uma bolsa incomodando você e os outros passageiros. E assim a viagem segue.
        Finalmente consigo me imaginar descendo daquele pesadelo. Encaro o relógio novamente, acho que agora ele perdeu a graça, está cansado também. Devolvo a bolsa, quase todos já desceram. Tem lugar de sobra. Dou sinal, vou descer. Arrumo a gola da camisa. Aqueço as pernas. Olho para meu percurso, que agora farei a pé até meu destino final. O transporte para, toco a calçada com a sola do sapato. Não perco tempo, ainda estou atrasado. Começo rapidamente a andar, atropelo gravetose folhas, piso em chicletes, desvio de fezes e poças d'aguá, pulo buracos e quase como em uma corrida, atravesso a faixa de vencedor. Entrando e prontamente falando: -Nossa, você viu aquele acidente na rua 'Mentira', na travessa com a rua 'Tiver que dar uma desculpa'. Provavelmente vai passar nos noticiários a noite! - É malandro, tem que ser ligeiro.

                              
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